Paulo Afonso: Desabafo de uma profissional
Crédito: Notícias do Sertão
“Passei seis anos da minha vida dedicados a pessoas, o HIV era só um detalhe!”
Quero registrar minha indignação e tristeza ao saber da morte de um dos oitenta e quatro pacientes que ao sair deixei no SETA- Serviço de Testagem e Aconselhamento em Paulo Afonso. Quando fui, assim como a minha equipe sem a menor consideração ou elegância demitida pela atual gestão do município. Inescrupulosamente, nomearam minha melhor amiga para me substituir temporariamente, obrigando-nos a construir juntas o PAM (Plano de ações e Metas) para o qual somente eu estava capacitada. Entre lágrimas, ela (Kelma - demitida logo após a aprovação federal do PAM) lamentava que tivesse que fazer o que considerava uma violência comigo e eu ajudei a equipe, mesmo chorando de dor, em consideração aos seres humanos fantásticos que encontrei à deriva em 2002 quando fui admitida. Na época foi necessário que junto à técnica de enfermagem Naidinha e professora Risalve (pelas quais tenho profunda admiração e carinho) tivéssemos que entrar nos becos excluídos de Paulo Afonso para fazer palestras e conquistar a confiança daqueles que viviam a dura realidade de só conhecer às DSTs preenchendo as estatísticas que marcavam ascendente número de infecções nessa cidade. Passei anos visitando e apenas agendando ambulância para levar pacientes aos centros de referência; Salvador, Maceió, Aracaju entre outros. Agradeço às equipes dessas unidades que os recebiam muitas vezes gerando vagas que nem existiam dado o nosso bom relacionamento e reconhecimento do nosso esforço. Os pacientes eram pessoas com quadros avançados de AIDS, muitas vezes pensei que não voltariam mais. Surpreendentemente, graças a Deus, eles não só voltavam como brilhantemente reassumiam suas vidas e nos provavam que o que fizéssemos por eles valeria à pena. Assim, o Programa Municipal DST/Aids de Paulo Afonso foi tomando forma , o GAPA se tornou parceiro, a Coordenação Estadual (Edvânia Landim e Maricélia Macêdo ) foram nossas mães para que a cidade tivesse visibilidade junto ao Ministério da Saúde. Com essa coordenação conseguimos orientação, insumos, capacitação, ingredientes necessários para que o programa evoluísse tornando-se REFERÊNCIA de pólo regional. Com projeto de um LACEN que deixamos encaminhadíssimo, microscópio de imunoflluorescência, contingente considerável de preservativos, cestas básicas bem nutridas que, de básicas só tinham o nome, pois foram elaboradas carinhosamente e cuidadosamente por nós e nutricionista e amiga Lucivânia.
Um serviço público com cara de pra lá de privado, humanizado, feliz. Passei seis anos da minha vida dedicados a pessoas, o HIV era só um detalhe. Graças aos comerciantes, amigos e parceiros nossos, distribuíamos presentes nos aniversários, palestras, datas importantes como o Dia Internacional da Mulher.
Em dezembro do ano passado visitei a cidade de Paulo Afonso e me entristeci ao ver o laço em frente ao BRADESCO apagado, símbolo da luta contra a AIDS dessa cidade deixado por nós. Quero registrar, caros munícipes que o estado do laço, nada mais é do que o reflexo da falta de compromisso com a causa. Ao invés de estarem tão preocupados com suas campanhas os gestores deveriam olhar além das suas necessidades e perceber que pessoas estão sem atendimento psicológico porque simplesmente porque não há empatia entre técnico (desculpe-me a colega) e pacientes, elas hoje visitam o SETA para consultas e recebimento de medicamentos antiretrovirais e isso descaracteriza de forma estrondosa o proposta do Programa DSTs/AIDS.
Conceitos precisam ser revistos, o programa é feito para o povo, deve servir para prevenir novas infecções e apoiar aqueles que vivem e convivem com o HIV.Não se deve morrer mais em função da AIDS,a maior oportunista é o preconceito e o medo que ele causa a quem é infectado. Ela matou um homem fascinante, guerreiro com valores éticos e morais admiráveis, a quem tive a honra de conhecer. Mas a população precisa deixar de ver a AIDS como problema do vizinho.Quando é que vamos nos mobilizar para fazer algo? Quando tiver alguém do nosso afeto infectado? Pensem nisso. O SETA é da população, o gestor nada mais é do que um representante nomeado por nós para gerenciá-lo.
Estou muito feliz por poder desabafar, no meu tempo certo, fortalecida e não mais ameaçada de perder emprego algum. Sinto-me com toda humildade LIVRE.
Abraço a todos que participaram direta ou indiretamente da minha luta pessoal contra a AIDS .
Saibam que a partir de hoje não me negarei a apoiar um paciente com AIDS, mas será de GRAÇA.
Fabiana Veloso

Paulo Afonso,


Poste seu comentário